Carência nossa de cada dia...



“Eu causo nas pessoas um tipo de enjôo com meu jeito,
com minha carência, com minha ânsia por atenção.
Tenho amor incondicional pelas pessoas que entram
em minha vida e, sinceramente, não sei o quanto
isso é bom. Talvez esse seja o meu pior defeito...”
Cazuza


A carência afetiva traduzida como ‘dependência do amor do outro’ é uma forma de padecimento psíquico; um estado íntimo de insatisfação; uma cronificação de padrões emocionais que levam a vivências de sofrimento e de infelicidade.
É um processo de desnutrição afetiva, gerador de arraigados automatismos mentais.
Afeto e carinho são necessidades básicas para qualquer individuo, parte fundamental do nosso senso de humanidade. Não se sentir humano, aguça nosso instinto de conservação, tornando-o exacerbado. Instauramos, então, padrões de defesa e mecanismos bloqueadores para evitar a dor. Mas com isso não é só a dor que bloqueamos, é também a nossa capacidade de sentir...
A carência não está só relacionada com a ausência de amor. Na grande maioria das vezes está ligada a realidade pessoal que criamos, aos nossos mecanismos bloqueadores, as nossas prisões do sentir. No estado adoecido de carência já não faz tanta diferença a quantidade de amor que recebemos, pois perdemos a capacidade de nos sentir amados, mesmo que sejamos...



Alguns disparadores





















“Vivências infantis influenciam de modo muito variado sobre como virão a ser os adultos que passaram por elas. De todo modo alguns são derrubados por obstáculos enormes, enquanto outras caem por qualquer tipo de problema. Tudo depende da força interior de cada indivíduo e dos estímulos que recebem de parentes e outras pessoas próximas.”
Flavio Gikovate



Uma educação excessivamente rígida, árida de afetos, com situações de privação extremada são algumas das formas mais dolorosas de se vivenciar a infância. Estimulam as prisões do sentir e os comportamentos cristalizados – certas vezes acentuados por experiências pregressas de dor, se acreditamos em múltiplas vidas – levam a estados de sofrimento íntimo e apatia. O que revela que as exigências da carência muitas vezes mascaram atormentados processos de baixa estima, vergonha, sensação de incapacidade, auto piedade e uma múltipla gama de sentimentos de culpa.




A incapacidade em lidar com perdas e frustrações é outro disparador, pode ser acompanhado ou não de uma realidade externa de dificuldades na infância, mas certamente a vivencia interna do individuo é de privação. Nesse caso a dificuldade de superação das limitações apresenta-se como um obstáculo. Crianças excessivamente mimadas que usam o afeto do outro como compensação ou recompensa são exemplos do desenvolvimento de um estado adoecido de carência.















“Para mim, o que acaba parecendo é que as pessoas mais egoístas – indiscutivelmente as mais fracas, apesar de serem agressivas e parecerem ter ‘gênio forte’ – usam esse tipo de argumento para obter maior atenção e carinho do que estão dispostas a dar. O prejuízo do passado terá de ser recuperado nos relacionamentos afetivos atuais, de forma que receber mais do que dar estaria justificado por essa suposta carência. É um argumento bastante maroto, mas capaz de sensibilizar os bons corações que, com facilidade, se enchem de compaixão e de culpa.”
Flavio Gikovate


O imediatismo é um dos maiores sabotadores para os adoecimentos no afeto, pois nos leva a percorrer os caminhos largos da precipitação e da imprudência, buscando de forma egoísta o gozo, o prazer, a satisfação de suas fantasias. Em uma busca de respostas instantâneas para alivio dor, criamos relações superficiais que só trazem um looping de decepção e mágoa, expondo a fragilidade das nossas escolhas.




Outro disparador são os padrões ilusórios de relação ideal estimuladas pela mídia, pelos costumes ou pela vivência de nossos pais.














“Existem poucos modelos de pessoas que se relacionam igualmente de forma saudável, madura, honesta, não manipuladora e não exploradora, provavelmente por duas razões: Primeira, com toda honestidade, tais relacionamentos na vida real são bem raros. Segunda, desde que a qualidade da interação emocional em relacionamentos saudáveis é sempre muito mais sutil que o drama de relacionamentos doentios, seu potencial dramático é normalmente negligenciado na literatura, no drama e nas canções. Se estilos doentios de relacionamento nos infestam, talvez seja porque são aproximadamente tudo que vemos e tudo que conhecemos.”
Robin Norwood

A expectativa de relações ideais, onde as pessoas sejam saídas de filmes. Assim como, relações com uma intensa carga dramática, são viciações afetivas, que nos levam a estados angustiantes de cárcere do sentimento.
As relações só parecem reais se forem intensas e dramáticas. Alimentando o ciúmes, a possessividade, as brigas... A alma carente, vê-se então enredada na vivência tormentosa da incapacidade de amar... Exigente de atenção e cristalizada no apego.


















“A maior parte das pessoas vê no problema do amor, em primeiro lugar, o problema de ser amado, e não o problema da própria capacidade de amar.”
Erich Fromm



A carência é um vício milenar de exigir e esperar ser amado.
É uma prisão emocional.

Muitas vezes em meio as tormentosas dores da vida não conseguimos reconhecer nossa responsabilidade frente as escolhas equivocadas que fazemos, projetamos a culpa do nosso sofrimento em outrem, nos eximindo de perceber em que contribuímos para os acontecimentos infelizes que nos rodeiam.
















"É o AMOR uma arte?
Se o é, exige conhecimento e esforço. Ou será o amor uma sensação agradável, que se experimente por acaso, algo em que se “cai” quando se tem sorte?”
Erich Fromm


De que se trata então o amor, se não de conhecimento e esforço?
Cabe-nos a todo instante buscar o aperfeiçoamento do nosso existir.
Superar o estado adoecido de carência só é verdadeiramente possível se melhorarmos a nós mesmos. Alimentando a perseverança e a coragem rumo às metas de aprimoramento. Entretanto essas virtudes não produzirão resultados se nosso estado emocional for de incoformação e azedume perante as dificuldades. Criaremos uma barreira impeditiva de nossa melhoria.
Sem duvidas nosso destino é a felicidade e a completude sem carências. E não conseguiremos alcançá-lo sem o cultivo da persistência e da paciência.




Quem ama, ainda que precisando ser amado, nutre-se, aprende, adquire equilíbrio. Transforma-se no labor da vida. Percebe que a postura de cobrador revoltado não é geradora de afeto. Amor não se exige, se partilha.












“O carente, em verdade, é um doente que deseja ardentemente amar sem conseguir. Não conseguindo, passa a exigir ser amado, criando relações complicadas e frágeis; é alguém a míngua de amor, um constante cultivador da esperança de ser compensado.”
Ermance Dufaux*



*Esse post surgiu da grande vontade de trazer a vocês algumas aproximações com os escritos de Ermance Dufaux, autora da literatura espírita que admiro muito. Seus livros sempre ressaltam a importância do aprimoramento pessoal e do conhecimento das próprias emoções na trajetória de caminhada da vida. Um dos capítulos de seu livro, Mereça ser Feliz, intitula-se ‘Carências’ e foi objeto de estudo dessa postagem.