Resgatando as próprias feridas...

A paciente – ela é enfermeira – narrou a seguinte história: quando a alguns dias ela estava de serviço, lhe comunicaram tarde da noite um grave acidente de transito. Em primeiro lugar, os enfermeiros levaram para dentro o corpo inerte de uma criancinha decuja cabeça só se podia distinguir o sangue coagulado de uma grande ferida. A criança logo foi posta de lado – para aquela pequena criatura qualquer ajuda pareceia chegar tarde demais – pois outras gravemente feridas estavam sendo levadas para o hospital. “Vocês não podem deixar a criança simplesmente assim deitada”, protestou a minha paciente; porém suas colegas e médicos acharam mais razoável cuidar dos adultos para os quais havia mais esperança de salvação. “Alguma coisa me atraiu para a criança”, disse a mulher quando me contou a história. Ela foi até a maca na qual a criança estava deitada e notou que a criança não respirava mais. Triste e desesperada, ela começou a acariciá-la. Absorta, não atendeu à convocação das outras enfermeiras para ajudá-las no cuidado com os feridos. Durante um longo tempo ficou ali sentada, acariciando a criança. E, de repente, ela começou suavemente, de maneira quase inaudível, a gemer: pelo seu pequeno corpo palpitou uma faísca de vida. Aflita, a mulher chamou um dos médicos que atendeu à pequena criatura e a tratou. A criança pode ser salva.
Minha paciente chorou e, com esse choro, dissolveu-se o triste sentimento de impasse, no qual ela vinha sentindo presa como numa noite escura. Um clarão de esperança passou pela sua alma, tal como a vida começara a voltar na criança machucada.
Em casa, ela registou numa folha de papel, com lápis de cor, tudo que se tornara importante para ela; uma criança ferida, sofrida, semimorta, que lhe lembrava suas próprias feridas, aquelas que ela havia experimentado na infância.
Trecho do livro “A grande mãe e a criança divina”
Angela Waiblinger

Um comentário:

Julia Tourinho - CRP: 05/33350 disse...

Esse texto mostra com delicadeza o resgate das próprias feridas e da criança interior, tantas vezes tão machucada.